12° capítulo A Volta do capitão Andries Van den Bergen
Antes de partir o mestre Bernardo Catarino selecionou 4
escravos, já de certa idade, que ele conhecia muito bem, e indicou ao novo
senhor do Engenho do Graveto para o serviço em relação a Praia da Jachinta e ao
atracadouro, ou seja, o negócio de escravos.
“ Eu prometi a eles a alforria, a liberdade, se servissem
muito bem e com total discrição ao amigo, mas como não estarei aqui para
verificar estou lhe dando esse documento de posse deles, e se tal acontecer os
libertem, em meu nome. ”
“Mestre Catarino, vossa mercê está me dando 4 escravos? ”
“ Sim. Estou, pois sei que o amigo não conhece ninguém de
confiança para o serviço, e eu conheço muito bem esses quatros, pois eles me
servem a muitos anos. Foram os primeiros que comprei ao chegar ao Bahia”.
“ Nem vou falar que quero pagar, pois sei que o amigo ficaria
ofendido, então, aceito. ”
“ Ficaria mesmo. ”
Assim, Anacleto, Agripino, Benedito e Cipriano passaram, com
total concordância deles, ao serviço de Manuel, mas, na verdade, com certo
pesar, já que o mestre Bernardo Catarino era um bom senhor para seus escravos.
Foi combinado que eles morariam numa casinha construída na
Praia da Jachinta, tendo ao lado uma meia agua que podia abrigar algumas
pessoas.
Ficou estabelecido que ao primeiro sinal de navio um deles,
sem chamar muita atenção, viria chamar a Manuel.
E assim o tempo passou...
Um certo dia, Agripino, veio correndo chamar o Sinhô Manel,
como Manuel era chamado.
Era o Werkelijke Nautilus que estava de volta.
Manuel, Mateus, Lucas, Marcos e João correram para a praia.
Num escaler estava o capitão Andries Van den Bergen, Zenon Baius,
Jacob Nunes, Moisés Zacuto, o cirurgião-barbeiro de bordo, e alguns marujos.
Abortaram no novíssimo ancoradouro.
Antes mesmo de desembarcar o capitão gritou elogios pela
construção daquele ‘portinho’, tão necessário para o serviço.
Zenon lhe fez eco.
Saudações trocadas, Manuel levou os recém-chegados para
conhecer o novo Engenho do Graveto.
Andries Van den Bergen ficou parvo com o que viu. Não
acreditou no que via. Era uma organização perfeita. Era uma camuflagem da
melhor qualidade, além do que a "WIC" receberia de seu associado o
açúcar tão precioso, uma das fontes de lucro da Companhia Holandesa das Índias
Ocidentais.
A outra fonte era o tráfico de escravos para o Brasil, para o
Caribe e para América do Norte, que deixava um lucro absurdo por cada viagem.
Quase estourou de alegria já que Manuel Leite tinha sido sua
escolha, sem nenhuma consulta a Câmara de Amsterdam, escolha essa que ele tinha
defendido com muita garra e maestria ante os membros do Conselho de
Administração.
Havia recebido um voto de confiança, agora poderia voltar
ante o Conselho com as provas de que sua escolha foi acertada.
O capitão Andries Van den Bergen, como bom protestante,
entoou baixinho um canto de Louvor ao Criador.
Zenon Baius não falava nada, já que estava rindo e chorando
ao mesmo tempo, afinal Manuel fora sua indicação ao capitão, e sua cabeça
estava a prêmio caso a ‘coisa’ desse errado.
Um almoço magnifico foi servido, regado a sangria de vinho
espanhol, pois os vinhos viajavam muito mal para o Brasil.
Pratos de camarões, de caranguejo, de siri, de peixe com
pirão, de frango, de carne de porco, de paca, de veado, travessas de barro com
milho, com macaxeira, com ovos cozidos, com cebola, com alho, um alguidar com
farinha misturada com os miúdos do porco (farofa) e uma especialidade africana
como prato principal, o famoso caruru, um cozido de quiabos com pedaços de
carne, frango, de peixe, camarões secos, com muito azeite de dendê, pimenta, servido
com abará, um bolinho de feijão-fradinho moído e embrulhado em folha de
bananeira.
A sobremesa foi tapioca ao leite de cabra, banana cozida,
canjica, pamonha, e muita fruta.
Os holandeses foram ao delírio.
Manuel mandou preparar balaios com essas comidas para serem
levados ao navio, e assim a marujada ter uma lauta refeição, pois conhecia bem
as vicissitudes dos embarcados.
Foi uma festa, mas regada a rum, abordo.
Manuel havia mantado preparar para os escravos recém-chegados
toneis com agua muita agua, e a mesma comida que era servida na senzala, ou
seja, ração com frango, peixe, carne de paca, feijão-preto com toucinho e
carne-seca, farinha de mandioca, limão, bananas e outras frutas.
O chefe dos cozinheiros, Dindó, um negro alforriado por
Bernardo Catarino, foi posto à par do movimento, e junto com Anacleto,
Agripino, Benedito e Cipriano, levou a comida dos escravos recém-chegados para
a Praia da Jachinta, onde ela seria servida assim que eles
desembaraçassem.
O capitão, Zenon, e os marujos que tinham ido no escaler,
tiraram uma sesta, e só depois é que trataram dos negócios com Manuel, Mateus,
Lucas, Marcos e João.
Jacob Nunes era guarda-livros da "WIC" encarregado
pela Camara de Amsterdam de verificar todas as contas nessa viagem, não só no
Brasil, como no Caribe e na América do Norte, sendo apresentado a Manuel e aos
outros só nessa hora.
Mateus logo se pôs à disposição para mostra-las, e isso levou
dois dias de trabalho já que a contabilidade estava muito bem organizada.
A contabilidade foi aprovada pelo Guarda-livros que a levou
consigo para Amsterdam, deixando uma cópia para Manuel com sua assinatura e um
belo de um elogio.
Um elogio de um contador, ainda mais sendo ele judeu, é mais
do que uma aprovação, é um atestado de idoneidade moral.
No dia seguinte a chegada, os escravos começaram a ser
transportados para a terra, sendo, ao pisar em terra firme, logo examinados por
Moisés Zacuto, o cirurgião-barbeiro, judeu de origem espanhola.
O processo se desenvolvia assim:
1- Todos recebiam
raçoes de agua potável;
2- Separados os que
estavam doentes – as doenças mais comuns eram febre, laceração ou úlcera da
boca, varíola, malária, disenteria, sarna-
dos sãos;
3- Os doentes eram
conduzidos para a meia agua a fim de serem tratados;
4- Os são ficavam em
um canto da praia perto de onde seria servida a comida, sob os olhares atentos
dos feitores;
5- Só depois dessa
movimentação é que a comida era servida.
Não vou descrever a cena aqui, mais era muito triste ver
homens famintos se debruçarem sobre os alimentos como se fosse a última
refeição de suas vidas.
Os escravos trazidos pelo capitão Andries Van den Bergen eram
durante a travessia tratados da melhor forma possível, pois interessava
conserva-los muito bem – porque isso trazia além de lucro para a Companhia,
ganho pessoal para Andries Van den Bergen ante a Câmara na Holanda – tanto que
a alimentação não era só a “estritamente necessária para os “fôlegos vivos” (como
eram chamados) não se enfraquecessem demais ou não morressem de desnutrição”,
não muito pelo contrário, a razão era razoável e havia farta distribuição de
laranjas, aliás as laranjas eram o ‘ prato principal ‘ da alimentação.
As laranjas preveniam o escorbuto, doença causada pela
carência de vitamina C, caracterizada por hemorragias nas gengivas, queda dos
dentes, dores nas articulações, feridas que não cicatrizam, tumores, úlceras,
tumefação dos testículos, turgência nos seios e na vagina, etc.
Ficavam todos à mercê dos feitores do navio, mas em terra
eram entregues aos feitores do Engenho, que os conduzia para a senzala.
Em todas as etapas de deslocamento dos escravos a violência
era constante e o chicote comia.
Nessa ‘carga’ havia algumas mulheres.
Entre elas uma jovem de rara beleza, parecia uma princesa, e
era, mas nem o comerciante africano, que morava numa região distante da onde
ele havia sido capturada, que a trocara por rendas de Bruxelas sabia disso.
Somente alguns escravos e duas escravas que com ela foram
negociados pelo capitão Andries Van den Bergen.
“A negociação entre os europeus e africanos era feito através
do escambo (troca). Os negociantes negros da África recebiam: tecidos, vinhos,
cavalos, ferro (que era derretido e transformado em armas na África),
conseguiam status social e, também, tinham maiores condições de enfrentar povos
inimigos e, assim, podiam obter mais escravos para serem negociados”.
Essa escrava chamou atenção de Manuel Leite de Cucujães.
Desempenada, airosa, esbelta, elegante ao andar, se
sobressaia das demais escravas e se distinguia dos outros escravos.
O novo Senhor de Engenho, chamou a Cipriano, e mandou que a
levasse para a Casa Grande.
Tendo o trabalho acabado, o navio preparado para partir – foi
carregado com frutas, animais, agua, comida, para uma viagem de três meses-
Mateus, Lucas, Marcos e João, se apresentaram de maneira formal ante Manuel.
“ O que houve, meus amigos? ”
“ Vamos partir. Nosso trabalho aqui chegou ao fim. Vamos no
Werkelijke Nautilus até um porto neutro e depois, assim que possível,
viajaremos para Portugal. Foi uma alegria para nos quatro trabalharmos com
Vossa Mercê. Pode acreditar nessa verdade que falo em nome dos quatro”, falou
Mateus, o mais eloquente deles.
“Foi mesmo”, falou um João comovido.
Na mão de um deles apareceu uma espécie de baú de couro
ricamente lavrado, na realidade um porta- pergaminhos, lacrado com quatro
brasões d’Armas e um grande selo, que Manuel não conhecia, não tinha a menor
ideia de que eram os selos.
“Guarde este bem guardado, Não a abra de jeito nenhum”.
“Só em caso de necessidade o apresente ao Irmão Eustáquio ou
quem tiver no lugar dele”.
“Entendeu, Senhor
Manuel?”, perguntou Marcos.
“Guarde bem ele, não
conte dele a ninguém, amigo Manuel”, falou Lucas.
“ Gostaria que descemos notícias suas à sua família em
Cucujães”, perguntou Mateus.
“ Sim. Claro. Mais se não for incomodo para os amigos”.
“ Não, não é”, daremos suas notícias.
“ Obrigado. Obrigadíssimo”
Abraços, choramingos, e os quatro, também, não olharam para
trás, rumaram sérios e pesarosos para a Praia da Jachinta, a fim de embarcarem
no Werkelijke Nautilus.
No atracadouro a choradeira continuou e nem pareciam piratas
aventureiros que navegavam pelo 7 Mares impondo medo e morte aos que lhe
cruzassem o caminho.
Dá nau, os marujos acenavam satisfeito para Manuel, que
respondia com grande entusiasmo.
E o Navio Negreiro, de Werkelijke Nautilus, e partiu de
madrugada rumo ao desconhecido.
Manuel observando- o até sumir no horizonte falou:
“Que Deus o acompanhe”.
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