10 ° capitulo Nasce o Engenho do Graveto.
A
caravana chegou.
Eu
esqueci de contar que o Irmão Eustáquio havia determinado ao padre Enéas
Jácome, padre da Companhia de Jesus, que fosse com a Caravana para abençoar as
novas construções, principalmente, que dedicasse a capela a São Manoel,
martirizado em 363 d. C., cuja festa é em 17 de junho.
Em
chegando, Mateus chamou ao mestre Bernardo é explicou que de determinados
pontos em diante os homens não poderiam passar alegando a defesa da flora e da
fauna.
Mestre
Bernardo fingiu que acreditou na explicação, mas ficou calado, só perguntado
onde eram esses pontos.
Mateus
chamou Lucas, Marcos e João, explicou o caso e juntos com o mestre e seus
capatazes foram demarcar os pontos limites.
Isso
feito, a capatazia ficou encarregada de transmitir essas ordens aos homens, e
eles acrescentaram, por conta própria, que quem não obedecesse seria entregue
ao Santo Ofício na pessoa de padre Enéas Jácome.
A
turma mijou nas calças ao ouvir o nome do Santo Ofício.
Armaram
as barracas, estabeleceram o local da carroça-cozinha e do rancho, dos grupos,
etc....e a obra começou em ritmo frenético.
Os
Moços de Manuel sabiam que os escravos trazidos pelos holandeses tinham que ter
seus dentes lustrados, cabelos raspados, para esconder alguma doença tinham que
receber um bom banho de óleo, um óleo que fazia a pele brilhar muito, bem como
serem bem alimentados, portanto essa nova senzala ia funcionar como estação de
engorda para assim garantir o bom preço de venda.
Por
isso, ordenaram a mestre Catarino que começasse logo as obras de ampliação na ruína
que outrora fora uma senzala para transforma-la em uma grande senzala que
poderia acomodar várias e várias ‘peças’, como eram chamados os escravos, pois
esses eram considerados como mercador.
Mestre
Catarino não comentou nada e começou a construção da nova senzala, mas sem
deixar de erguer as paredes da nova Casa Grande e da capela.
E
por aí foi.
Um
dia, com a obra em franco andamento, Manuel pediu ao mestre Catarino para
acompanha-lo.
Foram
para a Praia de Jachinta.
Bernardo
Catarino ficou extasiado com que viu.
Sentaram
à beira mar, e Manuel começou:
“
Amigo Bernardo. Vou contar a minha história…, ”
E
contou desde o dia que saiu de casa no “couto de Cucujães” até aqueles dias.
“
Bem meu caro amigo, uma história e tanto. Mais, vosmecê tem que se proteger e a
melhor forma é plantar cana nessas terras, pois como justificar TUDO sem uma
fonte de renda válida? ”
“
Não havia pensado nisso, e agora como faço? ”
“
Tenho que construir um atracadouro para a descarga dos escravos, como farei,
então?
“
Não tem problema. Eu resolvo isso”.
No
dia seguinte Bernardo Catarino foi ao encontro de Manuel em sua barraca.
“Bom
dia”.
“
Entre, amigo”.
Bernardo
entrou trazendo consigo um de seus capatazes.
“
Esse é o Pernambucano, ele sabe onde conseguir nas Terras do Morgado do Cabo, o
“pegamento de cana”, os cortes no caule dos talos ou pedaços de semente, além é
claro das próprias sementes, para serem usados no plantio da Cana de Açúcar. ”
“
Sim. Sinhô”, falou um carrancudo filho do sertão pernambucano.
“
Vai precisar levar ouro para pagar as pessoas que fornecem, mas ele é de
confiança, eu garanto”, falou o mestre.
“Se
o amigo diz, tá feito. Quanto? ”
Combinaram
a quantia, e lá foi o Pernambucano acompanhado de 2 cabras seus amigos e de
toda confiança, para o Morgadio do Cabo.
A
Casa Grande ficou pronta e Manuel com os amigos passaram a ocupa-la.
Já
com obra entrando em sua fase final, quando finalmente Pernambuco, seus cabras,
e alguns escravos que conheciam do plantio da cana, voltaram das Terras
pernambucanas dos Paes Barreto, o Morgadio do Carmo.
Foi
uma alegria geral, e Manuel mandou que fosse organizada uma festa para
comemorar.
A
distribuição de cachaça com gengibre foi farta, bem como uma lauta refeição a
base de carne de porco, a ração diária de rapadura e das frutas foram
triplicadas, não foi poupado nenhum esforço por parte do pessoal da cozinha
para agradar os comensais homens livros, ou escravos.
Muita
música, muita cantoria, muita dança de origem africana pelos escravos, tudo
isso para ninguém colocar defeito.
Em
meio a festa, Pernambuco, já meio tocado pela cachaça, virou em voz bem alta e
perguntou para Manuel:
“Sinhô.
Como vai se chamar o engenho?”
Manuel
coçou a cabeça, cofiou a barba aloirada, e em meio a sua confusão mental se
lembrou do graveto que lhe deu o primeiro fogo naquelas bandas, fogo esse que
lhe deu a primeira refeição quente depois de vários dias, e exclamou baixo
“Engenho do Graveto”.
Para
depois falar em voz bem alta, como se fosse para o mundo inteiro ouvir:
Vai
se chamar Engenho do Graveto.
E
foi assim que nasceu o Engenho do Graveto um dos mais prósperos, senão o mais
prospero, engenho de cana de açúcar de toda a formosa Bahia.
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